Ir Às Compras Para Esquecer

Por Fernanda Abreu

Psicóloga CRP 04/36407

Hipnoterapeuta Ericksoniana

A Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm), em um estudo feito em parceria com a Neotrust, chegou a números bastante interessantes, dentre os quais estão: mais de 20 milhões de brasileiros fizeram, em 2020, a sua primeira compra pela internet, e foram realizados, no mesmo ano, mais de 300 milhões de pedidos, em lojas virtuais.

Consumidores digitais por um lado, homens e mulheres com medo, angústia, tédio, ansiedade, depressão e solidão, por outro. No auge da pandemia, grande parte de nós se sentia completamente perdido, saudoso dos nossos, dispondo de mais tempo do que tínhamos antes… Foram muitas e bruscas mudanças, cercadas de incertezas e da ameaça de um vírus que não chegou para brincadeira.

O cartão de crédito virou uma espécie de passaporte e as salas de embarque nos colocavam diante das portas que não fecharam: as da internet. Ganhamos o mundo! Qualquer marca, de qualquer lugar, podia ser acessada. Parecia um sonho! Pesquisando objetos de desejo, criando um mundo de necessidades não reais, aguardando pacotes milagreiros, massageávamos o nosso ego, parávamos de pensar na gravidade do que estava acontecendo e nos enchíamos de recompensa rápida, volátil e viciante.

Enquanto isso, também fomos nos endividando, seduzidos pelas facilidades e diversidade de produtos e serviços oferecidos pelos mercados online. Não cuidamos, em nenhum momento, de pensar nos motivos que nos levavam a comprar com compulsividade e acabamos deixando a nossa saúde mental de lado.

Aos poucos, a Covid-19 foi se tornando mais desbravada pela Ciência, ganhamos vacinas de presente e fomos reacendendo a esperança de retomar as nossas vidas. Aos poucos, fomos percebendo que estávamos cultivando comportamentos que nos deixavam adormecidos, distraídos, mas que, embora nos ajudassem (temporariamente) com as tensões, não resolviam os nossos problemas…

Os novos hábitos de consumo, nascidos do isolamento social, revelaram o nosso desejo íntimo de “ir às compras para esquecer”. Segundo dados do Comitê de Métricas da Câmara Brasileira de Comércio Eletrônico, em parceria com o Movimento Compre e Confie, as compras online no Brasil aumentaram mais de 98%, durante a pandemia. Mas se acalme, nem tudo foi supérfluo, é preciso que se diga que muito desse aumento se deve também à necessidade, uma vez que as lojas físicas ficaram com o funcionamento limitado, nos tempos da maior crise sanitária do século.

Comprar libera hormônios do prazer, causa bem-estar, inegavelmente. Mas é necessário que aprendamos a nos perguntar se precisamos mesmo do que estamos adquirindo, para evitarmos de nos perder nos excessos que alguma falta anda nos impondo. Observe-se: a compulsão por compras, por comida, por drogas, jogos, pode estar impedindo que alertemos para algum transtorno mental.

Caso tenha se identificado com essas reflexões, mas se sinta frágil e desmotivado para romper com o que não está fazendo bem para você, procure e aceite ajuda. Tratamentos psicológicos ou psiquiátricos podem auxiliar no processo de autoconhecimento e de libertação das estratégias que traçamos para esconder as nossas verdadeiras vulnerabilidades. Normalmente, nem queremos ouvir falar das nossas mazelas… Às vezes, queremos esquecer. A questão aqui é que esquecer não faz com o que o problema desapareça. É preciso enfrentar e é complemente possível vencer!

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