10 de outubro
Dia Internacional da Saúde Mental
Por Fernanda Abreu
Psicóloga CRP 04/36407
Hipnoterapeuta Ericksoniana
Recentemente, as redes sociais foram tomadas pela pergunta: “e fora do story (ou do Youtube), você tá bem?”. Por mais que pareça desimportante, pela carga de humor que está inserida no texto e nos contextos em que foi usada, essa abordagem oportuniza uma reflexão profunda sobre a saúde mental.
“Opa, e não é que fomos flagrados? Descobriram que somos uma personagem no Instagram, no Facebook, no Tik Tok, no YouTube…”. Não só descobriram como resolveram deixar essa “revelação” bem acessível, escancarada! Ao nos questionarem sobre o nosso comportamento fora do story, fora da luz de LED, do cenário muito bem escolhido, das frases elaboradas para nos mostrarem engraçados, inteligentes e felizes, parece haver alguém querendo saber sobre a gente de verdade. Sobre a gente sem filtro. Ou, pelo menos, querendo nos lembrar da existência desse nosso “eu”, menos “instagramável”, mas, capaz de falar da nossa essência.
Não podemos, no entanto, tratar as mídias sociais como um algoz que nos obriga a inventar uma versão fraudulenta de nós mesmos. E tem mais, não usamos máscaras só no ambiente digital e a estratégia de usá-las, com variadas motivações, não é nada nova e não é apenas danosa para a nossa integridade emocional e moral.
Estamos mais que acostumados a não dizer tudo o que temos vontade; a nos apresentarmos mais satisfeitos do que verdadeiramente estamos; a não chorar na frente dos filhos, do chefe, de um amigo. A nos mantermos firmes para ajudar alguém cuja dor nos dilacere o coração. Estamos acostumados a medir e a equilibrar a maneira como nos portamos socialmente, entendendo essas posturas como sendo boas práticas de convivência.
Não existe nenhum problema em sermos cuidadosos com a nossa apresentação pública. Só há problemas, enormes, diga-se de passagem, no desenvolvimento de uma necessidade de viver de aparência, de não se aceitar a ponto de se assumir como a própria mentira que foi criada para impressionar o outro.
Entenda: ninguém é feliz e realizado 24 horas por dia, todos os dias de todos os anos; ninguém escapa às dificuldades que surgirão pelo caminho; ninguém por aqui é só amor e incapaz de sentir raiva, mágoa ou frustração. Precisamos aceitar de uma vez por todas: não há perfeição na vida real. Não podemos assumir a responsabilidade de sermos alguém de conduta irretocável, exemplar, o tempo inteiro. Sairemos muito frustrados e adoecidos desse malfadado compromisso e frustraremos e adoeceremos muitas pessoas no nosso entorno, por causa dele.
Parte do que garante que alguém possa ser colocado no hall das pessoas sadias mentalmente é a competência para sentir as emoções primárias (medo, tristeza, alegria, raiva e nojo); os sentimentos que nascem a partir do contato com elas e a capacidade de resposta social. A Organização Mundial da Saúde apresenta esse conceito de forma ainda mais clara e completa: saúde mental é “um estado de bem-estar em que o indivíduo percebe suas próprias habilidades, pode lidar com as tensões normais da vida, pode trabalhar de forma produtiva e frutífera e é capaz dar uma contribuição para sua comunidade”.
Portanto, quando usamos máscaras para não ferir, para auxiliar, para conquistar, para atrair atenção, estamos agindo dentro do que é esperado para alguém que se reconhece como integrante de uma coletividade. Não mais ou menos importante do que ninguém, apenas parte como todos os demais são. E, nessa condição, a saúde metal nos impõe uma corresponsabilidade de fazer a engrenagem da vida social funcionar.
Se as redes sociais inspiram que vistamos uma certa camuflagem para nos sentirmos ambientados, lembremo-nos que é bem provável que os perfis completamente ricos, lindos, lipados, cabelos com brilho, viajados, felizes e 100% amados também estejam se esforçando para caber e alimentar esse arquétipo digital.
Se você já sabe que aquela realidade publicada é recortada e editada não permita que se torne um estressor incontrolável. Avalie se a sua saúde metal está sofrendo impacto negativo do que vem das telas do celular, tablet ou computador. Somos insubstituíveis na gestão do nosso bem-estar, lembre-se disso.
Sou insistente em repetir, se não está conseguindo lidar bem com os seus problemas, com o que tem se tornado tóxico para a sua mente, busque e aceite ajuda.



