SÉRIE:
OS MISTÉRIOS DA MENTE E A OBESIDADE – a pandemia e o ganho de peso
Por Fernanda Abreu
Psicóloga CRP 04/36407
Hipnoterapeuta Ericksoniana
“Engordei muito nos últimos meses”, “estou trabalhando de casa e tenho comido muito mais”, “essa tensão que estamos vivendo aumenta a minha vontade de comer doce”, “tenho sentido mais fome, mais vontade de comer”… Você já deve ter dito ou ouvido frases como essas, especialmente neste momento pandêmico que estamos vivenciando. Aparentemente elas estão relacionadas a nossa alimentação, mudanças nos hábitos alimentares…. Aparentemente. Na verdade, elas estão nos alertando sobre as nossas buscas por formas (muitas equivocadas) de diluir a pressão, o medo, a solidão do isolamento social, as incertezas do porvir que têm impactado tão negativamente na nossa saúde emocional.
Comer mais, acima do habitual, pode ser sinal de transtornos como a ansiedade, capazes de desencadear sintomas físicos e psicológicos, que têm, entre as causas, algumas que podemos identificar com facilidade no tempo corrente (e que nos pegou a todos de surpresa):
- Muitas responsabilidades e autocobrança desequilibrada;
- Necessidade de estar no controle de tudo;
- Negação de que algo esteja errado;
- Preocupação excessiva e persistente;
- Repressão de sentimentos negativos (falaremos sobre isso, com mais atenção no próximo capítulo desta série);
- Situações de estresse extremo;
- Mudanças abruptas.
Segundo a Organização Mundial de Saúde, OMS, 18,6 milhões de brasileiros, quase 10% da população, convivem com o transtorno da ansiedade. Não posso levantar estatísticas, mas acredito que chegaríamos a números altíssimos, se fôssemos aferir quantas dessas pessoas não reconhecem a ansiedade como uma patologia e as suas consequências como graves entraves para o equilíbrio emocional.
Sentir-se ansioso em determinadas situações é completamente natural da nossa condição humana. É um misto de preocupação, inquietação, excitação, estresse, frio na barriga, mudanças no apetite, estartados por episódios que nos deslocam das nossas zonas de conforto. Essa descarga excepcional de altas quantidades de adrenalina e noradrenalina não é doença. Uma palestra, um exame médico mais invasivo, o nascimento de um filho, uma prova muito difícil, a demissão de um funcionário que não se adaptou à empresa são situações que dão mesmo um baque no estado normal do nosso corpo. A doença se manifesta no excesso, na ansiedade que nunca passa, sem motivo aparente e com picos cada vez mais recorrentes.
Observe como as emoções são importantes na nossa demanda por saúde, peso ideal, qualidade de vida… Elas podem, inclusive, simular uma fome física, quando, na verdade, estão interessadas em algo que promova segurança. A sensação de um vazio, de um buraco que não somos capazes de preencher costuma aconselhar que recorramos ao conforto de comidas com mais gorduras e açúcares, bebidas alcoólicas, que causarão bem-estar temporário e ainda poderão iniciar ou reativar ciclos da compulsão.
Há sentimentos desconhecidos, incômodos, nascidos em situações instáveis, ameaçadoras, que não são identificados pelo nosso inconsciente e ele comunica que aquilo precisa ser resolvido de qualquer forma, com urgência. Se a comida faz isso, mesmo que por pouco tempo, a mente já entende que houve progresso, e, para manter esse resultado “positivo”, não se importa se será necessário comer mais e novamente, mais e novamente…
Fomes psicológicas, instabilidade emocional, podem estar engordando o seu corpo físico. Essa desarmonia associada ao sedentarismo, à escolha por alimentos ricos em calorias e pobres em nutrientes, possivelmente está conduzindo você a um quadro de compulsão alimentar.
Leia os sinais, evite comer por comer, tenha o equilíbrio entre o corpo e a mente como meta. Caso não esteja conseguindo sozinho, lembre-se de que existem muitos profissionais habilitados para compor uma rede de apoio (que pode ser virtual) que vai ajudá-lo a encontrar ferramentas emocionais para lidar com situações de grande potencial traumático. Você não está sozinho.



