SÉRIE:
OS MISTÉRIOS DA MENTE E A OBESIDADE –
O culto à obesidade e a falsa ideia de autoamor
Por Fernanda Abreu
Psicóloga CRP 04/36407
Hipnoterapeuta Ericksoniana
Já observou que, quando abrimos as redes sociais, somos bombardeados pelas palavras autoamor e amor próprio? Sempre credito a origem desse movimento a um cansaço coletivo, filho das imposições sociais e dos padrões tão excludentes que nos dizem, desde a infância, que precisamos caber na expectativa (e medidas) do outro para sermos aceitos e amados. Essa violência emocional mal elaborada pode inspirar um recolhimento profundo e patológico ou uma busca desequilibrada por lugares mais confortáveis, muitas vezes marginais (guetos digitais, grupos fechados), para sermos nós mesmos.
A comparação também é um pilar que sustenta uma falsa ideia de autoamor. Quando comparamos a nossa vida à de outras pessoas, estamos negando quem somos, o que já conquistamos, as batalhas que vencemos e o que verdadeiramente queremos para nós e para os nossos. Passamos a objetivar aquilo que nos é mostrado, mesmo sabendo que ali está um produto da escolha dos melhores ângulos, cortes, filtros e tantas outras edições.
Amor próprio não depende de régua, de beleza celebrada, de relacionamento amoroso “de novela”, de dígito certo na balança. Trata-se, na verdade, de como nos enxergamos intimamente e de quanto amor, respeito e estima somos capazes de verter na nossa direção. Também é a forma como nos percebemos no mundo. Desse processo de autoanálise, surgem, no mínimo, dois caminhos:
- Um tem como destino a autoaceitação e o crescimento psicológico, moral e espiritual.
- O outro foca na autodepreciação, na vergonha e na culpa de ser quem se é.
Partindo das premissas que, em um universo de tanta diversidade, somos seres integrais, únicos, irrepetíveis, cheios de potências para oferecer e habilidades para desenvolver e que crescimento demanda trabalho, falemos da saúde física associada à mental.
A harmonia da nossa integralidade (componentes biológico, sociofamiliar, psicológico, espiritual) pressupõe, dentre tantas conexões, a busca pela saúde física. Esse prisma é um indicador muito objetivo, numérico (pensemos nos exames laboratoriais, na pressão arterial, na referência peso X altura) de como estamos cuidando de nós mesmos.
A obesidade, como já sabemos, é uma doença caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura corporal, capaz de fragilizar gravemente o corpo físico e o mental. Mais suscetíveis aos prejuízos emocionais e psicológicos como a depressão, a ansiedade e a baixa autoestima, o obeso vê o autoamor cruzando a sua história como uma meta inatingível. Com a minha aparência “eu não sou capaz de me amar”; “eu não mereço o amor do outro”; “essa roupa não é para mim”; “esse sonho não pode ser realizado”; “eu não quero ser fotografado”; “eu nunca vou ter sucesso na vida”… Nesses casos, perceba que há um entendimento adoecido de que amor próprio é privilégio daqueles que apresentam características físicas condizentes com os modelos que ilustram uma perfeição aplaudida nas revistas, televisão, internet. Como resposta, costumamos emagrecer para que nos achem bonitos, para as fotos de família, para a festa de formatura ou passamos a cultivar a obesidade e militar por essa causa, em uma espécie de grito, de pedido para poder existir, mesmo sendo fora do que disseram ser o ideal.
Não caiamos nessas ciladas, uma pessoa pode e deve gostar dela mesma; de como ela é; de como se apresenta; ter orgulho da sua evolução e da sua coragem de melhorar o que for necessário; de pedir ajuda, quando não der conta sozinha. O que uma pessoa não pode é esconder-se em leituras equivocadas de autoamor que, diante de uma espécie de proposta de abandono da própria saúde, prometa um bem-estar nunca antes experimentado e um acolhimento por aqueles que sofrem com feridas parecidas com as suas. Ame-se a ponto de abandonar autojulgamentos, de se desvencilhar da opinião de outras pessoas e de fortalecer, por você, todas as diretrizes que possam proporcionar uma felicidade genuína e sustentável.
Amor próprio, repito, não depende de régua, de beleza celebrada, de relacionamento amoroso “de novela”, de dígito certo na balança. Respeite sim o seu biotipo, a sua genética, a sua individualidade, a sua história, mas não se esqueça de respeitar a sua saúde.
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