Por Fernanda Abreu
Psicóloga CRP 04/36407
Hipnoterapeuta Ericksoniana
“Divórcios extrajudiciais sobem 26,9% de janeiro a maio de 2021 e disparam na pandemia; SP lidera ranking nacional”. Essa é a manchete do Portal G1, de 14 de junho de 2021. A matéria ainda apresenta os seguintes dados: “Foram 29.985 separações nos cinco primeiros meses deste ano, contra 23.621 de janeiro a maio de 2020, ano de recorde de separações no país. No estado de SP, as separações extrajudiciais cresceram 36,35% em 12 meses. O número de divórcios feitos em cartórios de notas do país subiu 26,9% de janeiro a maio deste ano, em relação ao mesmo período de 2020. Foram 29.985 separações nos cinco primeiros meses de 2021 contra 23.621 de janeiro a maio do ano passado, segundo os dados do Colégio Notarial do Brasil. São Paulo ocupa o primeiro lugar do ranking, com 7.306 processos. Se comparado a igual período de 2020, o crescimento foi de 36,35% em 12 meses. Depois de São Paulo, vem o Paraná, com 3.728 divórcios; Minas Gerais, com 3.089; Rio Grande do Sul, com 2.331; e Rio de Janeiro, com 1.835 (veja ranking completo abaixo). O ano de 2020 também foi marcado pelo recorde de 76.175 divórcios, contra 45.928 em 2010 e 22.109 em 2007.”
Vou me apropriar de um jargão do Direito que diz não haver argumentos contra os fatos. Esse crescente número de divórcios está nos deixando assustados, não restam dúvidas, mas, muito reflexivos ao mesmo tempo: então não somos capazes de conviver com as pessoas que escolhemos para viver ao nosso lado, para o resto das nossas vidas?
O conceito de casamento que conhecemos e cultuamos é extremante romântico e coloca os relacionamento em um campo exclusivo para os sentimentos. Se há amor, é certo de que haverá uma tolerância e cumplicidade inabaláveis. Se não há, eis a justificativa para não ter “dado certo”. Vamos desmembrar essa chuva de clichês em algumas questões importantes e definidoras da nossa maturidade emocional.
Até outro dia, todos estávamos com as rotinas estabelecidas, sem tempo para absolutamente nada que não fosse o trabalho dentro e fora de casa. Quando muito, nos presenteávamos com uma saída rápida com amigos ou com uma viagem curta para espairecer. No mais, estávamos acostumados a lançar luz sobre as dificuldades que nos cercavam, reclamando do cansaço, do chefe autoritário, dos filhos indisciplinados, da falta de dinheiro, de uma correria frenética, automática, sem fim e até mesmo, quando olhada com mais cuidado, sem razão convincente de ser. E aí o mundo deu uma parada! Fez-se um silêncio que não conhecíamos. Vibramos com os primeiros dias em casa para nos proteger e proteger aos nossos, demos uma descansada na cabeça, comemoramos algumas refeições mais tranquilas em família e, diante do que se apresentava, criamos novas rotinas. E novos problemas: “eu não aguento os meus filhos me chamando 24 horas por dia”, “o meu marido/minha esposa reclama o tempo todo”, “estou trabalhando muito mais e sem hora certa para terminar”, “preciso sair de casa ou vou enlouquecer”, “quero a minha vida de volta”!
Estar em casa por opção é extremamente diferente de estar em casa por obrigação. Além disso, o período pandêmico nos impôs muitos medos: da doença, do desemprego e, em muitos lares, infelizmente, da fome.
Nestes últimos meses, em um período traumático por si só, fomos reapresentados a nós mesmos, a quem nos tornamos ao longo das nossas vidas e isso também ocorreu com os nossos parceiros de jornada. Eles também mudaram muito… No final das contas, o silêncio lá fora fez com que precisássemos nos ver e nos ouvir. E que susto! Quantas novidades, umas muito boas e outras que preferíamos que fossem diferentes. A convivência diária acabou se transformando em uma lupa que tem certa preferência pelos defeitos dos outros.
Vimos que casamento não se faz só de sentimentos, se faz de acordos que precisam ser analisados e revalidados consensual e constantemente. Vimos que não podemos gerir a nossa vida baseados apenas no que se sentimos, mas que os sentimentos vêm da maneira como lidamos com a realidade. Colocar-se como a “régua do mundo”, ofendidos por todos aqueles que pensam diferente de nós mostra o quanto ainda precisamos avançar nas nossas relações interpessoais. É claro que existem casos em que o divórcio é a solução mais adequada e que garantirá dignidade e respeito no término das relações desgastadas e, há, os casos em que separar-se é fundamental para o rompimento definitivo com relações abusivas, tóxicas ou mesmo violentas.
Mas, de uma maneira geral, é positivo olharmos para as crises como oportunidades de ajustes e de novos começos. O sentimento não pode ser a única base para sustentar uma vida a dois, mas, ele é capaz de ampliar a nossa habilidade de diálogo e de fortalecer a nossa decisão de permanecer ao lado do marido ou da esposa. Relacionamento é decisão.
Assumir a nossa reponsabilidade para fazer “dar certo” também ajuda muito. Ficar culpando o outro pelos problemas enfrentados, terceirizando os motivos dos conflitos, mais uma vez, é sinal de imaturidade emocional.
E praticar o autoamor diariamente. Não aquele das frases de efeito do Instagram. O autoamor de verdade. O que sabe das nossas limitações, dos nossos defeitos, mas que também é generoso, paciente, conhece a nossa potência e que não desiste de caminhar. É impossível amar alguém sem antes experimentar esse sentimento internamente.
Os números lá fora, por enquanto, não são positivos; dizer que só depende de nós para mudar essa realidade não seria verdadeiro, então, se posso propor alguma direção que seja a do autoconhecimento.
Bateu muita dúvida sobre a continuidade do relacionamento? Veja de onde vem a insegurança: se do estresse da crise sanitária e suas consequências; se do cansaço de um relacionamento tóxico; se da coragem de recomeçar e decida, mas, decida com consciência e prontidão para o porvir.
Se está difícil demais para entender sozinho o que está se passando com você, procure a sua rede de apoio que pode ser a de amigos e familiares ou profissional. Só não deixe de tentar resolver as coisas, da melhor forma possível, mantendo a sua saúde mental, a consideração por aqueles que estão no seu entorno e o equilíbrio no seu lar.



