É dos episódios mais difíceis da nossa jornada quando a despedia definitiva de alguém que amamos se impõe diante de nós. Nesses momentos, somos devastados por uma realidade que já conhecemos, mas, preferimos fingir que não existe: a finitude da vida.
Antes de mais nada, quero que saiba que acolho e respeito o que está sentindo e que quero ajudar a despertar o seu desejo por recomeçar. Você não é mais o mesmo: uma ausência passou a fazer parte de quem você é, mas, aprender a colocá-la em um lugar seguro, onde ela caiba, bem resolvida, sem feri-lo, vai proporcionar um amadurecimento emocional muito importante.
Lidar com o fato de não sermos eternos e de não estarmos cercados por pessoas eternas é um baque capaz de desiquilibrar grande parte de nós. Reerguer-se pode ser um processo que demande ajuda, mas, é totalmente possível.
Desenvolver a competência de se autorrecuperar diante de eventos traumáticos, de aceitar o que é não é possível de ser modificado, de aprender com as lições que nos são inescapáveis e ainda ressurgir fortalecido depois da vivência de uma dor, são resultados buscados por quem opta por caminhar na direção da ressignificação das emoções.
As tão temidas ansiedade crônica e depressão, muitas vezes, têm o seu nascimento em um acontecimento agressivo que proporciona feridas de complexa cicatrização. Feridas que, não raro, não conseguimos, sozinhos, curá-las e que acabam sagrando ao longo das nossas vidas, roubando-lhes o brilho e a alegria potenciais e, ainda, provocando os adoecimentos da mente.
As experiências que vivemos são aprendizados, sejam os que são inspirados pela felicidade das vitórias ou pelo implacável sofrimento das despedidas. Para sermos capazes de compreender isso, necessitamos investir nas nossas regulação e imunização emocionais, diariamente. Necessitamos nos colocar em um movimento ativo de crescer a partir do bom aproveitamento de estarmos por aqui e, para tanto:
Tenha uma fé;
Usufrua de todas as oportunidades para estar entre os seus;
Não economize os abraços (que voltam aos poucos a serem possíveis e ainda mais valorosos para todos nós), tampouco as palavras de gentileza, de alegria e de amor;
Dedique-se verdadeiramente a fazer o bem e a espalhar o bem, da melhor forma que puder (aqui está uma maneira muito efetiva para blindar-se da culpa, uma péssima companheira e uma deletéria conselheira);
Reconheça e seja grato pela grandeza de estar vivo e estenda essa visão para a vida de todos aqueles que compartilham a marcha terrena com você;
Aceite as suas lágrimas e ouça o que elas têm a dizer;
Sinta os seus sorrisos e ouça o que eles têm a dizer;
Substitua, na medida do seu possível, as tristezas causadas pelos fins pelo agradecimento pelos começos e tempos de existência e partilha;
Não confunda sentir saudade com incompetência para recomeçar e rearranjar os sentimentos;
Pense que viver plenamente é uma forma de honrar e homenagear aqueles que amamos e que estão ou não estão mais entre nós.
- Perante o luto, só nos restam algumas certezas:
- Ninguém poderá enfrentá-lo por nós;
- Atravessá-lo é contínuo, é um não desistir e um não negar a própria história;
- A partir dele é possível e necessário imprimir novos significados às experiências pelas quais passamos e o que sentimos a partir delas.
A morte é notícia ainda mais excruciante justamente quando leva aqueles que amamos, mas sentir a falta deles é preferível a não tê-los conhecido e não tê-los amado, não é verdade? A morte é notícia ainda mais excruciante porque ela não nos dá mais tempo para viver o que deveria ter sido vivido; porque tira de nós a possibilidade de nos encontrarmos com a condição ideal para finalmente fazermos o que achávamos ideal. Ela é assunto encerrado e é por isso que o melhor antídoto para a dor da morte é a qualidade da vida que se vive.
Leiamos juntos a belíssima reflexão trazida por Rubem Alves:
“A Morte não é algo que nos espera no fim. É companheira silenciosa que fala com voz branda, sem querer nos aterrorizar, dizendo sempre a verdade e nos convidando à sabedoria de viver. A branda fala da Morte não nos aterroriza por nos falar da Morte. Ela nos aterroriza por nos falar da Vida. Na verdade, a Morte nunca fala sobre si mesma. Ela sempre nos fala sobre aquilo que estamos fazendo com a própria Vida, as perdas, os sonhos que não sonhamos, os riscos que não tomamos (por medo), os suicídios lentos que perpetramos. Embora a gente não saiba, a Morte fala com a voz do poeta. Porque é nele que as duas, a Vida e a Morte, encontram-se reconciliadas, conversam uma com a outra, e desta conversa surge a Beleza… Ela nos convida a contemplar a nossa própria verdade. E o que ela nos diz é simplesmente isto: “Veja a vida. Não há tempo a perder. É preciso viver agora! Não se pode deixar o amor para depois…”
Ame os vivos para que consiga despedir-se em paz daqueles que fazem a passagem; deixe-os ir e guarde os ensinamentos e os momentos de convivência como benção e consolo. Ressignificar uma dor é um gesto de autoamor. Se não estiver conseguindo promover isso na sua vida, procure e aceite ajuda.



